Mário Quintana: A humanidade posta em verso! Mário Quintana (1906-1994), poeta gaúcho, nascido em Alegrete, é considerado um poeta urbano, de consciência crítica, e em permanente “estado político”. Não escolhia assunto, escrevia sobre tudo, pois na sua percepção, tudo que existe é poético. É um dos poetas brasileiros mais queridos e reverenciados, dizem que a poesia de Quintana é a humanidade posta em verso.
Selecionamos algumas poesias de sua obra:
"Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deverás excelente.
Aquele que tu bebes, docemente,
Com teu mais velho e silencioso amigo "
QUANDO OS MEUS OLHOS...
Quando os meus olhos de manhã se abriram,
Fecham-se de novo, deslumbrados:
Uns peixes, em reflexos doirados,
Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se
Rua em rua, acenderam-se os telhados.
Num claro riso as tabuletas riram.
E até no canto onde os deixei guardados
Os meus sapatos velhos refloriram.
Quase que eu saio voando céu em fora!
Evitemos, Senhor, esse prodígio...
As famílias, que haviam de dizer?
Nenhum milagre é permitido agora...
E lá se iria o resto de prestígio
Que no meu bairro eu inda possa ter!...
Florbela Espanca
A Flor do sonho A flor do sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre...fantasia...ou talvez, sina...
Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minhálma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
Florbela Espanca
O meu Alentejo Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo...Ondeiam nos trigais
D" ouro fulvo, de leve...docemente...
As papoulas sangrentas, sensuais...
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros...
Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador...
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!
Realidade
Esta noite
Acordei chorando
Depois que sonhei com você
Na solidão do meu quarto
Vendo na parede sua fotografia
Eu me perguntava por quê.
Depois de tanto tempo
Em sonhos você vem
Pra me tirar o sossego,
E sumir logo depois...
Sei que sonhar e gostoso
Mas é doído também
Porque vem pra despertar
As velhas lembranças
Guardadas no fundo da alma
Que eu não queria recordar
Mas, se este sonho por acaso,
Se repetir, eu juro que vou!
Sair por ai, procurá-la e depois,
Dar um jeito de fazer este sonho
Se transformar em realidade.
Balneário dos Prazeres: 11/04/2008
Temas: CRIANÇA
CriançaTem coelhos na lua?
Roda ciranda
Esquece a hora
O brinquedo
Um colo joelho sarou
Olha a vidraça
Lá fora o balanço
Tem graça, lápis de cor na mão
Sineta- brilho- borboleta faz vento?
De onde vem a noite?
Onde foram as estrelas?
Olha o sorriso no sol!
Tem coelhos na lua?
Vai ter bolo, sorvete
Balões?
Passa-passaráio?
Também vou brincar!
Peixe-vivo, poça d´água
Lambida de cão
Nuvem, sereno, alvorada
Cheiro de goiabas
De tanto olhar prá cima
Pra fora, ao redor
Encantada com pássaros
Inventou o avião!.
de Virgínia Fulber
Temas: CRIANÇA
Prece da criançaSenhor,
estou muito assustado,
estão nos fazendo medo,
fico até cansado de pensar
um jeito de proibir os adultos
de matar os passarinhos,
de acabar com os rios,
de poluir os mares.
Tudo que o Senhor fez é tão bonito,
até me irrito,
quando vejo guerras dominando alguns lugares.
Quero sonhar
com uma escola feliz,
com professores sorrindo,
e uma nota que dê para passar...
É isto que sempre quis...
Ah! Quero minha família unida,
segurança para brincar na praça,
a imensa graça, de dormir,
sabendo que se há alguém na rua
vai poder voltar.
Amém.
de Ivone Boechat
Tema: CRIANÇA
O Menino no LixoNa lata do lixo,
come o menino,
O pão que sobrou
da mesa do desperdício.
O pão da soberba,
do desprezo da vida,
das injustiças.
O pão amassado
pelo sistema político,
pelo homem-ganância.,
No lixo dos lixos,
procura o menino,
o que há de comer.
Encontra miséria,
pobreza e horror.
Se acha vergonha,
opressão do poder,
violência e medo.
Nos entulhos imensos,
tem o menino nos olhos,
esperança brilhando.
Nos seus sonhos, desejos;
nos seus braços, a luta
de quem há de chegar.
No coração, alegria;
no sorriso, a certeza
de quem há de vencer.
de Rogério Medrado
Luís de Camões, o poeta que celebrou a honra e a bravura do povo português SONETO 79
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar, preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode ser favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões, o poeta que celebrou a honra e a bravura do povo português Luís de Camões (1524-1580) não foi apenas o poeta épico que celebrou em “Os Lusíadas” a honra e a bravura do povo português por terras e mares. Foi também poeta lírico, cantando, em seus sonetos, o amor e as contradições da existência.
ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado